Dubai reforça sua posição como um centro regional para produtos frescos.
Dubai anunciou o desenvolvimento do Mercado de Alimentos, Frutas e Vegetais, uma instalação que pretende se tornar o maior do mundo em seu gênero e fortalecer ainda mais a posição dos Emirados Árabes Unidos como um centro comercial de produtos frescos. O projeto — liderado pela Prefeitura de Dubai em parceria com a DP World — dobrará a capacidade do mercado existente e estabelecerá conexões mais diretas com os mercados globais.
Para entender o que esse salto significa para a região (e para categorias como mirtilos e frutas vermelhas, onde a cadeia de frio e a continuidade do fornecimento são cruciais), a Fruitnet conversou com Redha Mansouri, CEO da Fresh Fruits Company (FFC), e Hesam Rahi, CEO da Farzana Trading.
Como é o mercado nos Emirados Árabes Unidos e no Golfo?
Redha Mansouri (FFC): A região continua sendo estratégica e atrativa. Em um contexto de custos de produção mais elevados e fretes voláteis, a colaboração entre fornecedores, importadores e varejistas está se fortalecendo. O mercado do Golfo permanece dinâmico e resiliente, impulsionado pela crescente conscientização sobre saúde e pela expansão do comércio varejista. A demanda continua forte, sustentando o interesse em investimentos e inovação em toda a cadeia de valor.
Hesam Rahi (Farzana Trading): Com o crescimento populacional e o desenvolvimento sustentado nos países do Golfo, estamos testemunhando uma expansão do setor de produtos frescos. Os Emirados Árabes Unidos mantêm um papel central como plataforma regional devido à sua localização e à qualidade de seus portos e infraestrutura logística.
O que mudou após a Covid-19?
Redha Mansouri: A pandemia acelerou mudanças que vieram para ficar: a adoção digital, o crescimento das plataformas online e o comércio ágil, com entregas rápidas de produtos frescos. No âmbito das políticas públicas, os Emirados Árabes Unidos reforçaram seu foco na segurança alimentar e na agricultura local, com investimentos em agricultura climatizada e medidas para reduzir a dependência de importações em categorias-chave. Tudo isso abriu novas oportunidades e redefiniu prioridades.
Hesam RahiNa Farzana, fornecemos atualmente volumes significativos para empresas online, além de operarmos nossos próprios canais de e-commerce. Os padrões de consumo também mudaram: há uma crescente preferência — especialmente entre os consumidores mais jovens — por formatos pré-embalados, devido à sua conveniência, higiene e controle de porções. Essa tendência está remodelando a forma como apresentamos, embalamos e comercializamos produtos tanto no varejo físico quanto no digital, incluindo frutas delicadas como mirtilos.
O que eles esperam do novo mercado de produtos frescos?
Redha MansouriO Dubai Food District, desenvolvido em parceria com a DP World, irá duplicar a dimensão do mercado e conectá-lo ainda mais aos fluxos globais. Para os operadores já estabelecidos, isto é positivo: infraestrutura melhorada, uma cadeia de frio moderna e processos mais simplificados aumentam a eficiência e permitem a expansão.
Hesam Rahi: Para nós, esta é uma oportunidade concreta de fortalecer nossa posição. Dubai já opera um dos mercados mais modernos da região e, com instalações ainda mais avançadas, continuará a definir o padrão de eficiência e serviço.
Onde você está vendo crescimento?
Hesam RahiEm Farzana, experimentamos um forte crescimento em nossos negócios diretos, com envios da origem para diversos portos de destino. Hoje, exportamos para mais de 30 países e observamos um progresso significativo impulsionado pela demanda por nossa marca premium, Lavida, que está presente no Golfo, na Ásia Central e no Norte e Leste da África. Na região MENA (Oriente Médio e Norte da África), o reconhecimento da marca tem sido um fator determinante para o crescimento do volume.
Redha MansouriO crescimento é particularmente notável nos mercados vizinhos do Golfo, onde a demanda por produtos frescos de alta qualidade e com marcas reconhecidas está aumentando. As marcas sempre foram essenciais para a identidade da FFC, com parcerias de longo prazo. Nosso portfólio inclui Chiquita, Zespri, Jazz, Pink Lady e Envy. Além disso, Frutia é nossa marca própria para diversos segmentos de mercado, e Hello Fruits é nossa marca voltada para o consumidor final, com sucos frescos e frutas e verduras frescas cortadas, com quiosques nos hipermercados Carrefour fortalecendo nossa presença local.
O que eles estão importando e o que pretendem adquirir no futuro?
Redha Mansouri: A FFC trabalha com um portfólio altamente diversificado: importamos mais de 500 produtos durante todo o ano de mais de 60 países. Nossas categorias incluem bananas, abacaxis, maçãs, frutas cítricas, kiwis, uvas, mirtilos e outras frutas vermelhas, verduras, tomates e produtos de nicho. Nossa força reside na identificação precoce de origens e produtos emergentes. Vemos potencial em categorias premium e de valor agregado, e em origens que podem oferecer consistência, qualidade e sustentabilidade.
Hesam Rahi: Na Divisão de Produtos Frescos da Farzana, importamos mais de 1.000 SKUs e embalamos e fornecemos mais de 20 categorias sob a marca Lavida. Um marco recente foi a conquista de uma parceria exclusiva com Madagascar para sermos o único distribuidor de lichia malgaxe no Oriente Médio, Turquia e Norte da África.
Principais desafios: logística, clima e sustentabilidade
Hesam Rahi: Um dos principais desafios atuais são os longos tempos de trânsito causados pela situação no Mar Vermelho, que afeta principalmente os embarques da Europa e da América do Sul. Viagens mais longas aumentam o risco de variações de qualidade e volatilidade do mercado, podendo comprometer a continuidade do fornecimento. Além disso, atrasos e padrões irregulares de chegada — com semanas de chegadas duplas ou triplas — complicam o planejamento e a gestão de estoques. Em categorias sensíveis como a de mirtilos, essas interrupções são sentidas de forma aguda.
Em um nível mais amplo, as mudanças climáticas estão afetando as regiões e os ciclos de produção. Por meio de fontes de abastecimento diversificadas e planejamento proativo, buscamos reduzir os riscos e manter a qualidade e a disponibilidade.
Redha Mansouri: A sustentabilidade está se tornando fundamental, impulsionada por preocupações ambientais e expectativas do consumidor. Preço e qualidade continuam sendo essenciais, mas há uma crescente atenção ao fornecimento responsável, à segurança alimentar, às embalagens e à redução de resíduos. Muitos de nossos produtos possuem certificação GlobalGAP, o que reflete nosso compromisso com a rastreabilidade e as melhores práticas.
Dubai está recuperando seu papel como um centro regional?
Redha MansouriDubai não perdeu sua posição, mas a está reafirmando com ainda mais força. Embora alguns países importem certos produtos de forma mais direta, as vantagens de Dubai permanecem claras: portos e aeroportos de classe mundial, logística eficiente, instalações modernas de armazenamento e cadeia de frio, e um ambiente regulatório estável.
Hesam Rahi: Concordo: a posição de Dubai não se enfraqueceu. Sua conectividade com o Oriente Médio, a África, a Ásia Central e até mesmo a Europa a mantém no centro dos fluxos comerciais regionais e internacionais.
Olhar a longo prazo
Hesam Rahi: Com décadas de experiência no setor, já superamos ciclos, rupturas e mudanças. Essa experiência, aliada a fortes relações com produtores e parceiros logísticos, nos dá a flexibilidade necessária para nos adaptarmos e crescermos.
Redha Mansouri: Por mais de 50 anos, a FFC enfrentou desafios econômicos, geopolíticos e industriais que fortaleceram sua resiliência. Isso nos permite olhar para o futuro com confiança.
Por fim, Mansouri observou que foi recentemente eleito presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Dubai e lembrou que a FFC também desenvolveu o The Fresh Market, um complexo de escritórios e comércio atacadista ao lado do Mercado de Frutas e Vegetais de Dubai, projetado para complementar a operação existente, criar empregos e reforçar o papel da cidade como um centro regional para o comércio de produtos frescos.
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