Tangier concentra-se no desafio do mirtilo: cultivar sem pressionar o mercado.
Por: Martin Carrillo
A oferta global de mirtilos continuará a crescer nos próximos anos. Novos países produtores estão se juntando aos principais exportadores, e a fruta está se tornando mais amplamente disponível ao longo do ano. Ao mesmo tempo, o consumo ainda tem espaço para aumentar, embora os principais mercados não estejam demonstrando a mesma capacidade de absorver esse crescimento.
O debate marcou as apresentações de mercado realizadas nesta quarta-feira no 43º Seminário Internacional sobre Frutas Vermelhas Marrocos 2026, organizado pela Blueberries Consulting em Tânger. Amine Bennani, presidente da Associação Marroquina de Produtores de Frutas Vermelhas; Cindy Van Rijswick, especialista da Rabobank Research; e Álvaro Villalba, Diretor de Negócios e Desenvolvimento Genético da Hortifrut para a região EMEA, abordaram a evolução da oferta, o comportamento do mercado e os fatores que começam a desempenhar um papel mais significativo na competição entre origens.
O consumo ainda tem espaço para crescer.
Van Rijswick previu que a oferta global de mirtilos continuará a aumentar. O Peru permanecerá um ator importante, mas outros exportadores também aumentarão seus volumes, e novos participantes, incluindo países africanos e o Egito, expandirão a quantidade de frutas disponíveis ao longo do ano.
Esse crescimento ocorre em um mercado onde o consumo também continua aumentando. A empresa de consultoria Rabobank estimou o consumo europeu de mirtilos frescos em aproximadamente 700 gramas per capita, em comparação com cerca de 300 a 350 gramas em 2019. Na Alemanha e na Holanda, as compras de mirtilo cresceram mais rapidamente do que a tendência observada para todas as frutas e outras bagas.
No Reino Unido, um dos mercados mais desenvolvidos da categoria, as vendas de frutos vermelhos frescos ultrapassam atualmente os 2.000 mil milhões de libras, enquanto os mirtilos continuam a sua trajetória de crescimento. A Ásia apresenta uma situação diferente: o consumo per capita permanece baixo e, mesmo na China — o maior produtor mundial —, as compras frequentes continuam concentradas num segmento limitado da população.
Van Rijswick também enfatizou que o crescimento do consumo depende da manutenção de um fornecimento constante. Quando as frutas deixam de estar disponíveis nos supermercados, a possibilidade de desenvolvimento adicional da categoria também fica limitada.

Cindy Van Rijswick, Rabobank Research @Blueberries Consulting
Os Estados Unidos e a Europa enviam sinais diferentes.
A comparação entre os dois principais mercados ocidentais foi um dos pontos mais relevantes da apresentação do Rabobank.
Nos Estados Unidos, as importações de mirtilo aumentaram de menos de 100 toneladas para mais de 300 toneladas. Entre 2017 e 2023, o volume quase dobrou e, apesar desse aumento, o preço médio de importação permaneceu relativamente estável. Van Rijswick interpretou essa tendência como um sinal da capacidade do mercado americano de absorver volumes maiores.
A Europa apresentou uma dinâmica diferente. Durante parte do período analisado, o aumento do volume coincidiu com uma redução dos preços médios. Van Rijswick alertou que um crescimento excessivamente rápido da oferta poderia exercer pressão descendente sobre os preços, especialmente no mercado europeu.
A comparação introduz uma nuance importante para um setor cuja produção continua a expandir-se: um maior consumo não significa necessariamente que todos os destinos possam incorporar novos volumes nas mesmas condições comerciais.
Mais origens estão entrando no mercado.
A China faz parte dessa transformação. Van Rijswick observou que o país não apenas aumentou sua produção, mas também estendeu sua temporada e expandiu suas exportações para mercados como o Sudeste Asiático, a Ásia Central e a Rússia.
Dessa forma, a China está ganhando espaço como exportadora em destinos onde outros fornecedores também atuam, adicionando um novo elemento a uma competição que não depende mais exclusivamente das principais origens tradicionais.
Amine Bennani trouxe essa discussão para o cenário marroquino ao analisar a evolução da produção e comercialização de frutas vermelhas no país. Sua apresentação revelou uma indústria em larga escala, justamente em um momento em que as diferenças nas taxas de absorção entre os mercados e a convergência de origens diversas se tornam cada vez mais relevantes.

Amine Bennani, Presidente da Associação Marroquina de Produtores de Frutas Vermelhas © Blueberries Consulting
A proximidade precisa ser acompanhada de coragem.
A apresentação de Álvaro Villalba acrescentou outra dimensão à análise: a relação entre janela comercial, tempo de entrega, genética e características da fruta.
A proximidade de Marrocos com a Europa continua sendo uma vantagem logística em relação aos fornecedores que precisam percorrer distâncias maiores. No entanto, seu valor se altera com o passar das semanas, à medida que outras origens entram no mercado e a temporada espanhola começa. O período de comercialização permanece importante, mas a condição e as características da fruta na chegada também desempenham um papel significativo.
Nesse ponto, Villalba posicionou a genética como parte da estratégia comercial, e não meramente como uma decisão de produção. A seleção da variedade deve levar em consideração o mercado-alvo, o momento de chegada, o sabor, a qualidade e a capacidade de manter esses atributos ao longo da vida útil do produto.
Para Marrocos, essa combinação abre a possibilidade de agregar valor à sua vantagem geográfica: a genética pode transformar uma vantagem logística em uma vantagem qualitativa, permitindo que o país concorra não apenas pelo acesso ao mercado, mas também pelas características da fruta.

Álvaro Villalba, Diretor de Desenvolvimento de Negócios e Genética para a região EMEA na Hortifrut ©Blueberries Consulting
Os custos continuam a pressionar a equação.
Van Rijswick acrescentou que energia, fertilizantes, diesel, embalagens e logística continuam a pressionar a cadeia de suprimentos. Ele estimou que o impacto nos custos das frutas vermelhas poderia ser de cerca de 3 a 5%, embora tenha esclarecido que isso não implica necessariamente um aumento correspondente no preço recebido pelo produtor.
O cenário apresentado em Tânger combina, portanto, duas tendências que avançam simultaneamente: a produção e o consumo continuam a crescer, mas os mercados têm capacidades diferentes para absorver esse aumento sem afetar o valor da fruta.
Para Marrocos, a proximidade com a Europa continua sendo importante. No entanto, as exposições mostraram que a genética, a qualidade, a consistência e o momento da chegada estão se tornando cada vez mais cruciais para capitalizar essa vantagem em um mercado com maior oferta e mais origens competindo ao longo do ano.
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