A competitividade dos mirtilos não reside apenas nos resultados.
Por: Jonathan Betzaín Trujillo Magaña
Dois produtores podem alcançar rendimentos semelhantes, comercializar frutas de qualidade comparável e até mesmo operar na mesma região de cultivo. No entanto, um pode ter pessoal qualificado, acesso a financiamento, tecnologia, conhecimento de seus custos, disponibilidade de água e canais de comercialização diversificados, enquanto o outro enfrenta dificuldades para obter financiamento, inovar ou responder às mudanças do mercado.
Podemos afirmar que ambos são igualmente competitivos? Provavelmente não.
Produção, rendimento, exportações, preços e área cultivada são indicadores fundamentais para avaliar o desempenho agrícola, mas descrevem principalmente resultados. Por trás desses indicadores, estão as capacidades que ajudam a gerar, sustentar e responder às mudanças no ambiente.
Essa questão deu origem a um projeto de pesquisa de doutorado desenvolvido em Michoacán com um objetivo específico: construir um Indicador de Competitividade Agrícola (ICA) para produtores de mirtilo.
De 42 itens para sete fatores
O estudo combinou informações de contexto da literatura com informações fornecidas por atores ligados à indústria de oxicocoCom base nesse trabalho, foi construído um instrumento quantitativo composto por 42 itens, que posteriormente foi aplicado aos produtores.
Antes de prosseguir com o indicador, foram avaliadas a consistência interna do instrumento e a adequação da aplicação de uma análise fatorial. O questionário obteve um alfa de Cronbach de 0,947 e um índice KMO de 0,875, enquanto o teste de Bartlett foi estatisticamente significativo. Com base nesse contexto, foi aplicada a análise fatorial exploratória (AFE).
O modelo em figuras
- 42 itens avaliados
- 0,947 Alfa de Cronbach
- Índice KMO 0,875
- 7 fatores identificados
- 78,69% da variância explicada
A AFE identificou sete fatores, posteriormente interpretados no estudo como dimensões da competitividade:
Capacidades Estratégicas · Mercados e Logística · Governança · Produção · Financiamento · Burocracia · Água
Segundo o autor, esses resultados reforçam uma ideia central do trabalho: a competitividade agrícola é multidimensional. Ela depende não apenas dos níveis de produção ou das condições naturais e comerciais, mas também das capacidades da empresa e do ambiente em que opera.

Fonte: Elaboração própria do autor, baseada em pesquisa.
Dois métodos, interpretações diferentes
Para complementar a AFE, foi utilizado o Random Forest, um algoritmo de aprendizado de máquina empregado na pesquisa para identificar quais fatores forneciam mais informações para diferenciar os níveis de competitividade.
As Capacidades Estratégicas apresentaram a maior importância preditiva, com 31,27%. Em seguida, vieram Financiamento, com 21,06%; Produção, com 17,9%; e Água, com 12,61%. Mercados e Logística alcançaram 8,98%, Governança 5,98% e Burocracia 2,2%.

Fonte: Elaboração própria do autor, baseada em pesquisa.
Em algumas dimensões, os resultados de ambos os métodos foram muito próximos. As Capacidades Estratégicas, por exemplo, representaram 32,08% na EFA e atingiram 31,27% de importância preditiva na Floresta Aleatória.
O contraste mais acentuado surgiu na água. No AFE, representou 4,52%, enquanto na Floresta Aleatória atingiu uma importância preditiva de 12,61%.
A diferença não implica necessariamente uma contradição entre os dois métodos. Enquanto a Análise Fatorial Exploratória (AFE) permite a identificação da estrutura estatística dos fatores, a Floresta Aleatória (Random Forest) oferece uma segunda perspectiva sobre sua importância preditiva dentro do modelo.
Para o autor, o caso da água demonstra como um fator com menor peso dentro da estrutura geral pode adquirir considerável relevância ao diferenciar perfis competitivos.
Da análise ao indicador
Com base em ambas as análises, foram estabelecidas as ponderações utilizadas na ICA desenvolvida para este estudo:

Fonte: Elaboração própria do autor, baseada em pesquisa.
Com essas ponderações, o ICA foi calculado individualmente e transformado em uma escala de 0 a 100 pontos.
Mesma região, realidades competitivas diferentes.
Entre os produtores analisados, a pontuação média do ICA foi de 58,24 pontos, com mediana de 62,04. Os resultados individuais variaram de 6,78 a 86,93 pontos, com desvio padrão de 19,70.
Distribuição dos resultados da ICA entre os produtores analisados

Fonte: Elaboração própria do autor, baseada em pesquisa.
Segundo o autor, essa amplitude ajuda a explicar por que falar da “competitividade de Michoacán” como uma condição homogênea pode ser insuficiente. Dentro da mesma região, empresas com combinações muito diferentes de capacidades e vulnerabilidades podem coexistir.
Conhecer a pontuação não basta. O potencial da ICA reside em explicar por que um produtor obteve esse resultado.
Duas empresas podem alcançar uma pontuação semelhante e, ainda assim, apresentar perfis muito diferentes. Uma pode ter fortes capacidades empreendedoras e uma vulnerabilidade relacionada à água; a outra, boas condições de produção e financeiras, mas deficiências tecnológicas ou comerciais.
Portanto, o indicador pode ser desagregado por dimensão para identificar onde se concentram os pontos fortes e fracos.
A questão já não é apenas:
Quão competitivo eu sou?
e se torna:
O que eu precisaria melhorar para ser mais competitivo?
Nem todas essas áreas dependem exclusivamente do produtor. Treinamento, inovação, gestão e adoção de tecnologia podem ser abordados principalmente de dentro da empresa. Financiamento, infraestrutura, disponibilidade de água, regulamentação e burocracia também envolvem instituições, associações e autoridades.
Novas variedades, exigências de qualidade mais elevadas, pressão sobre os recursos naturais, novos países produtores e alterações nas janelas comerciais exigem adaptação constante.
Ser eficiente hoje não garante necessariamente ser competitivo amanhã.
Será que a ICA poderia avançar rumo a comparações internacionais?
O ICA desenvolvido em Michoacán representa uma primeira abordagem e ainda requer a ampliação das observações e a realização de validações externas antes que seus resultados possam ser generalizados.
Essa primeira aplicação deixa uma questão em aberto:
O que aconteceria se pudéssemos usar critérios comparáveis para analisar produtores e regiões no México, Peru, Chile, Estados Unidos, Marrocos, China ou outros países?
Ampliar e validar a metodologia em outros países nos permitiria avaliar se ela pode ser usada para comparar diferentes sistemas de produção.
Segundo o autor, uma comparação internacional poderia ampliar a discussão para além de quem produz ou exporta mais. Também nos permitiria observar onde as capacidades estão concentradas, onde surgem vulnerabilidades e quais as diferenças existentes entre os vários sistemas de produção.
A indústria global de oxicoco A empresa desenvolveu ferramentas cada vez mais sofisticadas para medir produção, qualidade, condição, desempenho e comércio. Talvez tenha chegado a hora de também construir ferramentas para medir as capacidades que tornam esses resultados possíveis.
Porque o verdadeiro valor de medir a competitividade não está em saber quem está em primeiro lugar. Está em descobrir o que precisamos mudar para competir melhor.
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