A indústria global de mirtilo consolida sua expansão estrutural
Em 2024, a indústria mundial de mirtilo consolidou uma fase de recuperação e maturidade produtiva, registrando um crescimento de 21% nos volumes totais cultivados em todo o mundo, atingindo 2,15 milhões de toneladas métricas (TM), de acordo com o último relatório da Organização Internacional do Mirtilo (IBO, 2025).
O segmento de frutas frescas foi responsável por 1,67 milhão de toneladas, um aumento de 20% em relação a 2023, com produtividade global atingindo 9.190 kg/ha, impulsionada por melhorias tecnológicas e genéticas nas principais áreas produtoras.
Liderança regional e expansão estrutural
As Américas continuam sendo o principal polo de produção, contribuindo com 46% do total global (996.000 toneladas). Na região, a América do Sul recuperou seu impulso (503.000 toneladas) após os efeitos climáticos do El Niño, enquanto os EUA e o Canadá foram responsáveis por 424.000 toneladas. O México e a América Central contribuíram com quase 70.000 toneladas, consolidando sua posição como fornecedores estratégicos na entressafra.
Por sua vez, a Ásia-Pacífico continua em forte expansão, com 752.000 MT (35% do total global), impulsionada principalmente pela China (712.000 MT), o que reafirma seu papel como um novo motor de crescimento global.
A região EMEA (Europa, Oriente Médio e África) atingiu 402.000 toneladas (aumento de 18,7%), com desempenho excepcional no Norte da África e no Sul da Europa, onde as condições climáticas e o investimento privado permitiram a expansão do mercado e o aumento da produtividade. Marrocos, Egito e Portugal estão emergindo como novos polos de fornecimento para o mercado europeu.
Processamento e integração industrial
O segmento processado, embora com margem menor, tornou-se um pilar estratégico para a estabilidade do mercado. Em 2024, a produção global de mirtilos processados atingiu 477.000 toneladas, um aumento significativo em relação aos anos anteriores.
O processamento industrial — focado em IQF (congelamento individual), misturas de frutas vermelhas e derivados para a indústria alimentícia — absorve os excedentes do mercado de frutas frescas e atua como regulador de preços em períodos de excesso de oferta. A mecanização e a eficiência da colheita têm mantido a lucratividade, embora o investimento em infraestrutura de processamento permaneça limitado fora do Noroeste Pacífico e do Chile.
Os mirtilos orgânicos processados registraram um prêmio de preço de 33% em relação aos mirtilos convencionais, refletindo a demanda sustentada em mercados de alta renda. No Chile, quase 20% das exportações processadas se enquadram nessa categoria.
Desafios estruturais: dados, transparência e sustentabilidade
O relatório também levanta preocupações sobre a precisão dos dados globais sobre plantações. Segundo o IBO, o número oficial de 279.000 hectares pode estar subestimado em até 7.000 hectares, devido a plantios informais, replantios e falta de registro oficial em mercados emergentes como China, Índia, Norte da África e Oriente Médio.
Essa subnotificação reflete a expansão rápida e não institucionalizada do setor, impulsionada por empresas privadas e novos participantes, o que representa desafios para o planejamento e a previsão do fornecimento futuro.
Em nível estrutural, o setor enfrenta os desafios do estresse hídrico, da escassez de mão de obra e da necessidade de inovação genética para sustentar a produtividade diante de condições climáticas mais extremas. Ao mesmo tempo, a diversificação de produtos processados e a expansão para novos usos industriais (como barras de proteína, iogurtes e produtos prontos para consumo) abrem oportunidades de crescimento e agregação de valor.
Perspectivas de curto e médio prazo
A indústria global de mirtilo está entrando em um novo estágio de maturidade e diversificação, onde produtividade, rastreabilidade e sustentabilidade se consolidam como pilares estratégicos.
O cenário 2025-2030 aponta para uma produção estruturalmente maior, impulsionada pela tecnologia agrícola, integração da cadeia de valor e expansão geográfica em direção ao Norte da África, Ásia e América do Sul.
A resiliência do consumo global, que mal ultrapassa 1 kg por pessoa, sugere oportunidades significativas de crescimento, especialmente na Ásia e no Oriente Médio. A chave, segundo especialistas do IBO, será consolidar modelos sustentáveis de gestão hídrica, inovação genética e qualidade pós-colheita em um mercado cada vez mais competitivo e globalizado.
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