O Grupo Unifrutti, gigante global, está ganhando terreno no Peru.
O Grupo Unifrutti, multinacional de frutas pertencente ao fundo soberano de Abu Dhabi, ADQ, expandiu seu portfólio no mercado peruano após adquirir 100% da Agrícola Safco Perú e da Global Agro Perú, empresas especializadas na exportação de frutas de Ica. Com essa aquisição, a uva de mesa se torna um componente essencial de sua estratégia para garantir um fornecimento praticamente ininterrupto ao mercado americano. Como essa integração impactará a agricultura peruana?
Unifrutti, um ator fundamental no comércio global de frutas.
A história do grupo remonta a 1946, quando o empresário italiano Guido De Nadai fundou uma empresa de comércio de frutas e vegetais em Asmara (Eritreia, localizada na África, então sob forte influência italiana).
Durante a década de 1960, De Nadai diversificou os negócios para produtos enlatados, frutas e vegetais processados em várias fábricas, ao mesmo tempo que fortaleceu sua presença na Arábia Saudita. No final da década de 1970, o próximo passo foi o Chile, com o objetivo de expandir as redes de sua empresa familiar.
Segundo registros do Grupo Unifrutti, a fertilidade do solo chileno e a ambição de abastecer mercados como o Oriente Médio e a Itália foram fatores-chave para sua consolidação na América do Sul. A marca Unifrutti, como é conhecida hoje, foi formalmente estabelecida no Chile em 1983.
Após a morte de De Nadai em 1989, seus herdeiros assumiram a gestão da empresa. Somente em março de 2022 o grupo foi integrado à holding de Abu Dhabi, ADQ, renomada por sua atuação nos setores de alimentos e agricultura, que então se tornou sua acionista majoritária.
Hoje, o Grupo Unifrutti administra mais de 16,000 hectares em quatro continentes e distribui mais de 300 variedades de frutas em mais de 50 países, incluindo uvas e mirtilos. A empresa controla toda a cadeia, da produção à embalagem, logística e distribuição. Seu valor de mercado é estimado em mais de US$ 830 milhões, com um volume de quase 50 milhões de caixas exportadas anualmente.
O impacto de sua crescente presença nas exportações agrícolas peruanas
Víctor Ballena, coordenador do Observatório de Comércio Exterior da Faculdade de Economia da UPC, disse à Gestión que a recente aquisição da Safco e da Global Agro Perú marca um novo capítulo para as exportações agrícolas peruanas e transnacionais, visto que o país está ganhando relevância como ponto estratégico em seu esquema global de abastecimento.
A transação soma-se a uma série de movimentações recentes. Além da aquisição da Safco e da Global Agro Perú — avaliada em aproximadamente US$ 150 milhões, segundo o El Financiero — a Unifrutti adquiriu 100% da AvoAmerica Perú e da Bomarea em março de 2024. produtores de mirtilo e abacates no norte do país, para as empresas americanas Solum Partners e Alpine Fresh. Em janeiro daquele mesmo ano, finalizou a compra da Verfrut, uma das maiores exportadoras do Chile e do Peru, com mais de 7,500 hectares em ambos os territórios.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Irrigação (Midagri), as exportações peruanas de uva de mesa devem ultrapassar 760,000 mil toneladas até 2025, com um valor superior a US$ 1,900 bilhão e um preço médio de US$ 3,27 por quilo. A safra da uva, como mencionado por Ballena, vai de setembro ou outubro a abril, dependendo da região.
“O Grupo Unifrutti tem muito interesse no mercado peruano. A aquisição da Safco permite atender a um período específico da safra de uvas, entre setembro e outubro, o que complementa sua produção no Chile e consolida um fornecimento quase contínuo para os Estados Unidos”, explicou Ballena.
Na opinião dele, a chegada do grupo também poderia ajudar a aliviar alguns entraves no agronegócio local, especialmente em logística, transporte e infraestrutura.
Embora a Safco não esteja entre as maiores exportadoras agrícolas do país, estima-se que ela exporte cerca de 10,000 toneladas de uvas de mesa anualmente, avaliadas em aproximadamente US$ 29 milhões. A empresa possui cerca de 560 hectares de vinhedos e duas unidades de embalagem em Ica.
Mohamed Elsarky, CEO do Grupo Unifrutti, afirmou que a aquisição no Peru "integrará as variedades premium e as capacidades da Safco para beneficiar seus relacionamentos com varejistas e distribuidores em todo o mundo", de acordo com o site Agraria.
Nesse sentido, Ballena prevê que a Unifrutti chegará não apenas como investidora, mas também como detentora de conhecimento, principalmente em negociações com empresas de transporte marítimo e em controles de qualidade pós-colheita, em um contexto em que o país vem fortalecendo sua infraestrutura portuária.
“Pode-se gerar um efeito multiplicador com melhorias na infraestrutura, como o porto de Paracas, e uma adoção mais rápida de tecnologias no setor de logística”, observou ele.
O que esperar da indústria de mirtilos e frutos vermelhos
Para o setor de frutas vermelhas, o principal indicador é o tipo de estratégia que está sendo consolidada: controle de ativos, embalagem e logística para garantir qualidade consistente e execução comercial dentro dos prazos definidos. Em um mercado onde as condições de chegada e a continuidade do programa são tão importantes quanto o volume, o desenvolvimento de plataformas multifrutas com presença no Peru pode elevar o padrão competitivo, não apenas para uvas, mas também para mirtilos, quando o objetivo é o fornecimento regular e o atendimento às demandas cada vez mais rigorosas dos varejistas.
Dados
– A Safco envia uvas de mesa premium para varejistas nos Estados Unidos, sendo as variedades Cotton Candy, Sweet Globe e Autumn Crisp as mais representativas de sua oferta.
– Benjamín Cillóniz, gerente geral da Agrícola Safco Perú, disse ao Agraria.pe que a venda para o Grupo Unifrutti representa um salto “para a primeira divisão”. Atualmente, a empresa tem “cerca de 2 milhões de caixas para colher, embalar, enviar e receber o pagamento”.
– Segundo a Provid, a principal empresa exportadora de uvas, até o primeiro trimestre de 2025, foi a Rapel (7.3 milhões de caixas de 8.2 kg); seguida pela El Pedregal (6.8 milhões de caixas) e pela Ecosac (6.3 milhões de caixas).